[ Trechos de um Livro que Estou Lendo ]

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Quando se age com base na piedade e não na justiça, termina-se punido. O bom para salvar o mau; quando se salva o mau da punição, força-se o inocente a sofrer.

Dave Mitchum vivia se queixando de injustiça porque, segundo ele, sempre fora perseguido pelo azar. Falava, com uma voz misteriosa, sobre uma conspiração dos mandachuvas, embora jamais explicasse quem exatamente seriam tais pessoas. Sua principal queixa e principal padrão de valor era a antiguidade: ele trabalhava em estradas de ferro havia mais tempo do que muita gente que subira mais que ele. Isso, dizia, era prova da injustiça do sistema social – embora jamais explicasse o que queria dizer com “sistema social”. Já trabalhara em muitas ferrovias, mas não ficara muito tempo em nenhuma dela. Seus patrões não o acusavam de nada em particular, apenas o despediam porque ele dizia “Ninguém me disse nada!”

O que agora querem que adoremos é  figura nua, deformada e irracional – antes fantasiada de deus ou rei – do incompetente. Esse é o novo ideal, a nova meta, o novo objetivo de vida, e todos os homens serão recompensados à medida que se aproximarem de tal ideal.

…é necessário possuir uma mente excepcional e uma integridade mais excepcional ainda para permanecer imune às influências das doutrinas do mundo que destroem o cérebro, o peso do mal acumulado há séculos – permanecer humano, já que o humano é o racional.

Num mundo que proclama a inexistência da mente, que justifica o império da força bruta, que castiga os competentes em favor dos incompetentes, que sacrifica os melhores em favor dos piores, num mundo assim, os melhores têm de se voltar contra a sociedade e se tornar seus piores inimigos.

Todo homem constrói seu mundo à sua imagem e semelhança. Ele tem o poder de escolher, mas não tem o poder de fugir à necessidade de escolher. Se abdica de seu poder, abdica da condição de homem, e o caos esmagador do irracional é o que ele coloca como sua esfera de existência, por sua livre escolha.

– A falta de fé – rosnava um orador corpulento, no tom de quem puxa uma briga de rua – é a única coisa que temos a temer! Se tivermos fé nos planos de nossos líderes, eles vão dar certo, e todos nós teremos prosperidade, lazer e abundância. São esses sujeitos que vivem semeando dúvidas e destruindo o nosso moral que causam a pobreza e a escassez de produtos. Mas não vamos deixar que eles continuem a fazer isso por muito tempo, não. Estamos aqui para proteger o povo, e, se algum deles aparecer por aqui com suas dúvidas, vai ver o que é bom.

Não sabiam mais o que era ou não era perigoso, naqueles tempos em que os culpados não eram punidos, mas os acusadores eram.

“O problema do nosso mundo moderno”, disse o Dr. Robert Stadler no rádio, na cerimônia de início da construção do cíclotron, “é que tem gente demais pensando demais. É essa a causa de todos os medos e dúvidas que nos afligem no momento. Os cidadãos esclarecidos devem abandonar esse culto supersticioso à lógica e à desacreditada razão. Do mesmo modo que os leigos deixam a medicina para os médicos e a eletrônica para os engenheiros, as pessoas que não estão capacitadas para pensar devem deixar a tarefa de pensar exclusivamente a cargo dos peritos e ter fé na sua autoridade. Apenas os peritos são capazes de compreender as descobertas da ciência moderna, as quais provaram que o pensamento é uma ilusão e a mente é um mito”.

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