[ O Ataque ao Cofre – Do Livro “1808”, de Laurentino Gomes ]

 

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Continuação do capítulo 15…

Era uma corte cara, perdulária e voraz. Em 1820, ano anterior ao retorno a Portugal, consumia 513 galinhas, frangos, pombos e perus e noventa dúzias de ovos por dia. Eram quase 200 mil aves e 33 mil dúzias de ovos por ano, que custavam cerca de 900 contos de réis ou quase cinquenta milhões de reais em dinheiro atual. A demanda era tão grande que, por ordem do administrador da ucharia real, a repartição responsável pelos depósitos de comida da corte, todas as galinhas à venda no Rio de Janeiro deveriam ser, prioritariamente, compradas por agentes do rei. A decisão provocou escassez dessas penosas no mercado e revolta nos moradores da cidade. Numa carta a Dom João VI, eles reclamaram da falta de galinhas e também do comportamento dos funcionários da despensa real, que passaram a vendê-las no mercado paralelo, cobrando um sobrepreço.

Nos treze anos em que Dom João viveu no Brasil, as despesas da mal administrada e corrupta ucharia real mais do que triplicaram. O déficit crescia sem parar. No último ano, 1821, o buraco no orçamento tinha aumentado mais de vinte vezes – de dez contos de réis para 239 contos de réis. Apesar disso, a corte continuou a bancar todo mundo, sem se preocupar com a origem dos recursos. “todos, sem exceção, recebiam ração, de acordo com o seu lugar e valimento”, explica o historiador Jurandir Malerba. “Nobres, mas também cada artista contratado, como os cantores e músicos italianos, ou pintores e arquitetos franceses e naturalistas austríacos, embaixadores e funcionários das repartições recebiam sua cota de víveres á custa da real ucharia, prática extinta apenas no governo austero de Dom Pedro I”.

Onde achar dinheiro para sustentar tanta gente? A primeira solução foi obter um empréstimo da Inglaterra, no valor de 600 mil libras esterlinas. Esse dinheiro, usado em 1809 para cobrir as despesas da viagem e os primeiros gastos da corte no Rio de Janeiro, seria um pedaço da dívida de 2 milhões de libras esterlinas que o Brasil herdaria de Portugal depois da Independência. Outra providência, igualmente insustentável no longo prazo, foi criar um banco estatal para emitir moeda. A breve e triste história do primeiro Banco do Brasil, criado pelo príncipe regente sete meses depois de chegar ao Rio de Janeiro, é um exemplo do compadrio que se estabeleceu entre a Monarquia e uma casta de privilegiados negociantes, fazendeiros e traficantes de escravos a partir de 1808.

Continua em um outro post…

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