[ O Ataque ao Cofre – Do Livro “1808”, de Laurentino Gomes ]

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Continuação do capítulo 15…

Pela Carta Régia de outubro de 1808, o capital do Banco do Brasil seria composto de 1200 ações no valor unitário de um conto de réis. Para estimular a compra dessas ações, a Coroa estabeleceu uma política de toma lá da cá. Os novos acionistas eram recompensados com títulos de nobreza, comendas e a nomeação para cargos de deputado da Real Junta do Comércio, além da promessa de dividendos muito superiores aos resultados gerados pela instituição. Em troca, o príncipe regente tinha à disposição um banco para emitir papel-moeda à vontade, tanto quanto fossem as necessidades da corte recém-chegada. Como resultado, quem era rico e plebeu virou nobre. Quem já era rico e nobre enriqueceu ainda mais. A mágica funcionou durante pouco mais de dez anos.

Em 1820, o novo banco já estava arruinado. Seus depósitos em ouro, que serviam de garantia para a emissão de moeda, representavam apenas 20% do total de dinheiro em circulação. Ou seja, 80% correspondiam a dinheiro podre, sem lastro. Noventa por cento de todos os saques eram feitos pela realeza. Para piorar a situação, ao retornar a Portugal, em 1821, Dom João VI levou todas as barras de ouro e os diamantes que a Coroa mantinha nos cofres do banco, abalando definitivamente sua credibilidade. Falida e sem chances de recuperação, a instituição teve de ser liquidada em 1829, sete anos depois da Independência. Foi recriada duas décadas e meia mais tarde, em 1853, já no governo do imperador Pedro II. O atual Banco do Brasil vive, portanto, a sua segunda encarnação, na qual teve momentos muito semelhantes aos de sua origem, ao financiar sem garantias políticos, senhores de engenho e fazendeiros quebrados.

Outra herança da época de Dom João é a prática da “caixinha” nas concorrências e nos pagamentos dos serviços públicos. O historiador Oliveira Lima, citando os relatos do inglês Luccock, diz que se cobrava uma comissão de 17% sobre todos os pagamentos ou saques no Tesouro público. Era uma forma de extorsão velada: se o interessado não comparecesse com os 17%, os processos simplesmente paravam de andar. “A época de Dom João VI estava destinada a ser na história brasileira, pelo que diz respeito à administração, uma era de muita corrupção e peculato”, avaliou Oliveira Lima. “A corrupção medrava escandalosa e tanto contribuía para aumentar as despesas como contribuía o contrabando para diminuir as rendas”.

Continua em um outro post…

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