[ O Ataque ao Cofre – Do Livro “1808”, de Laurentino Gomes ]

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Continuação do capítulo 15…

No Rio de Janeiro, a corte portuguesa estava organizada em seis grandes setores administrativos – chamados de repartições. A Mantearia Real era responsável por todos os assuntos relativos à mesa do rei e sua família, incluindo a lavagem e o fornecimento de talheres e guardanapos. Ao Guarda-Roupas cabia zelar pelas vestimentas de Dom João e de toda a família real. A repartição das Cavalariças cuidava dos animais de cavalgada, de tração das carruagens e seges reais e também dos muares usados em serviços de transporte de mercadorias. A Ucharia Real e a Cozinha se encarregavam da alimentação e da bebida. A Real Coutada administrava as florestas e os bosques reais. Por fim, cabia à Mordomia-Mor organizar e administrar tudo isso com dinheiro fornecido pelo Erário Real e seu braço financeiro, o Banco do Brasil.

Os responsáveis por essas repartições passariam para a história como símbolos de maracutaia e enriquecimento ilícito. A área de compras e os estoques da Casa Real eram administrados por Joaquim José de Azevedo – o mesmo oficial que, em novembro de 1807, fora convocado às pressas ao Palácio de Queluz para organizar o embarque da nobreza. Francisco Bento Maria Targini comandava o Erário Real. Os dois eram muito próximos de Dom João e Carlota Joaquina, convivendo na intimidade da família real, o que lhes dava poder e influência que iam muito além das suas atribuições normais. De seus departamentos saíam a comida, o transporte, o conforto e todos os benefícios que sustentavam os milhares de dependentes da corte. Seus amigos tinham tudo. Seus inimigos, nada.

No Brasil, Azevedo enriqueceu tão rapidamente e teve sua imagem de tal modo ligada à roubalheira que no retorno de Dom João VI, em 1821, foi impedido de desembarcar em Lisboa pelas cortes portuguesas. A proibição em nada perturbou sua bem-sucedida carreira. Ao contrário. No Brasil, a família continuou enriquecendo e prosperando depois da Independência. Em maio de 1823, a viajante inglesa Maria Graham foi convidada para a noite de gala que celebraria a primeira Constituinte do Brasil independente. Ao chegar ao teatro, dirigiu-se ao camarote da mulher de Azevedo, de quem era amiga, e surpreendeu-se com o que viu. A anfitriã estava coberta com diamantes que, na estimativa de Graham, valeriam cerca de 150 mil libras esterlinas, o equivalente hoje a 34 milhões de reais. Segundo a inglesa, na ocasião a mulher se vangloriou de ter deixado guardado em casa outro tanto de joias de igual valor.

Filho de pai italiano de origem humilde, Targini nasceu em Lisboa em 1756. Entrou no serviço público como guarda-livros, um trabalho menos na burocracia do governo português. Como era inteligente e disciplinado, virou escrevente do Erário e logo chegou ao mais alto cargo nessa repartição. Com a vinda da realeza ao Brasil, passou a acumular poder e honrarias. Encarregado de administrar as finanças públicas, o que incluía todos os contratos e pagamentos da corte, enriqueceu rapidamente. Ao final do período de Dom João no Brasil, sua casa, com dois andares e sótão, situada na esquina da rua dos Inválidos com Riachuelo, era uma das maiores do Rio de Janeiro. Em meio à revolução constitucionalista de março de 1821, foi preso e teve seus bens confiscados. Duas semanas mais tarde, estava solto. Também foi proibido de retornar a Portugal com Dom João VI, mas continuou a levar uma vida tranquila e confortável no Brasil.

Continua em um outro post…

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