[ Informação Faltante ]

quebracabeca

Quando fazemos algumas inferências é comum, aqui e acolá, parecer que está faltando alguma informação importante. Geralmente deixamos essas informações subentendidas em nosso texto ou fala, isto é, contamos que o acréscimo seja feito por quem nos lê ou ouve. Vamos a um exemplo. Suponha que você diga para alguém:

“Estou certo de que o livro de Jorge Amado que comprei é muito bom e que irei gostar dele”.

Se a pessoa para quem você fala sobre o livro de Jorge Amado lhe conhece bem e sabe que você é fã das obras do escritor baiano, ela pode ter feito a seguinte inferência, ainda que não de forma explícita:

“O meu amigo sempre gostou dos romances escritos por Jorge Amado. Logo, ele deverá também gostar desse e deverá considerá-lo muito bom”.

A esse tipo de raciocínio com premissas ausentes damos o nome de entimemas.

Entimemas dependem do contexto. O nosso reconhecimento e subsequente reconstrução da inferência depende da situação em que aparece a informação.

Algumas vezes, as propagandas são eficazes porque são na verdade entimemas com conclusões ausentes. Alguns comerciais astuciosos dizem muito pouco, mas deixam implícito muita coisa. As imagens visuais são criadas para que você, sem se dar conta, complete a conclusão que falta: “Se eu comprar este produto, eu viverei o tipo de vida mostrada na tela”. Nas propagandas políticas este recurso é bastante comum, uma vez que os candidatos hoje em dia são verdadeiros produtos fabricados pelos marqueteiros políticos.

O que escolhemos para completar a premissa ou a conclusão que falta pode afetar a avaliação subsequente da inferência. Por exemplo, suponha que alguém diga o seguinte:

“Meu cavalo é veloz porque é puro-sangue”.

Poderíamos completar a informação de duas maneiras diferentes:

  1. Meu cavalo é veloz porque é puro-sangue, e todos os puro-sangue são velozes.
  2. Meu cavalo é veloz porque é puro-sangue, e a maioria dos puro-sangue é veloz.

A primeira reconstrução seria inválida tão logo fosse encontrado um contra-exemplo, isto é, um puro-sangue que não fosse veloz. Assim sendo, a segunda reconstrução tem mais chance de ser verdadeira, pois admite a existência de algum puro-sangue não veloz.

Os entimemas são grandes geradores de confusão em um debate. Quem profere um entimema muitas vezes espera que quem está ouvindo ou está lendo o seu texto complete a informação ausente, ou melhor, a informação implícita da maneira mais adequada possível, isto é, de acordo com o que o autor do entimema acredita ser o correto. E como nem sempre isso acontece surgem os inúmeros equívocos e informações que não são bem compreendidas. É comum num debate em que alguém se valeu de um entimema a pessoa dizer:

“Mas isso está implícito no que eu falei! Vocês é que não entenderam direito!”

Em tempos em que a compreensão textual se torna cada vez mais complicada e onde muitos não conseguem fazer uma interpretação razoável por mais simples que seja um texto ou tema de uma apresentação, creio que a melhor política é evitar ao máximo o uso de entimemas, ainda que o seus texto ou fala fique um tanto cheio de explicações e talvez até mesmo cansativo.

 

P.S.: este texto foi escrito baseado em um capítulo do livro Lógica – Uma Introdução Voltada para As Ciências, de Stan Baronett.

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