[ Esquerda & Direita – Um Pouco Além dos Rótulos ]

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Faz tempo que se fala sobre esquerda e direita. E desde as eleições de 2014 que muito tem sido falado sobre estes dois polos de pensamento político. Mas será que realmente sabemos o que vem a ser pensamento político de esquerda e pensamento político de direita? Será que aquilo que nos é dito sobre esquerda e direita realmente está correto?

O que venho percebendo faz muito tempo é que costumeiramente há uma tendência a se demonizar uma das posições. Isto é, quem é “de esquerda” procura dizer que tudo de ruim que acontece é culpa “da direita” e vice-versa. E quando o debate político fica resumido a esta visão puramente maniqueísta todos acabam perdendo e não evolução alguma.

Trago neste post uma passagem do livro “Política – Quem Manda, Por que Manda, Como Manda”, do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro que é uma explicação simples e que pode ajudar a clarear melhor as ideias a respeito do que vem a ser “de esquerda” ou “de direita”.


As ideologias e as posições políticas são, ainda hoje, muito vistas em termos de Esquerda e Direita. Ao contrário do que seu uso indiscriminado pode sugerir, não são conceitos claros e muitas das pessoas que os aplicam todo o tempo, se chamadas a defini-los com alguma precisão, teriam dificuldade. Não é culpa delas. As palavras estão sujeitas a empregos arbitrários e abusivos, de tal forma que acabam por ter seu sentido diluído ou tornado imprestável para uma comunicação adequada. Há até mesmo uma chuva de acusações de direitismo e esquerdismo dentro das organizações de Esquerda, que só podem deixar o observador desavisado um tanto confuso.

Na prática, o que hoje se conhece por Esquerda são posições próximas ou identificadas com os que desejam a socialização da economia – em última análise, a abolição da propriedade privada e a estatização dos meios de produção. As posições à Direita seriam aquelas identificadas ou aproximadas com o contrário da proposição acima, a ponto de, em sua condição mais extremada, pretenderem eliminar as liberdades individuais para garantir o esquema que consideram correto. Tal distinção, que vai quebrando o galho nos jornais e nos bate-papos, não resiste a uma análise um pouquinho rigorosa, chegando muita gente a concluir, por exemplo, que não se pode chamar de “Esquerda” o aparato dominante nos países socialistas, mas, sim de “Direita”, tamanho o conservadorismo desses aparatos, o papel opressor que o Estado muitas vezes assume, o caráter totalitário e assim por diante. Além disso, como chegamos a ver, o termo “Esquerda”, em Política, tem tido sempre uma conotação de oposição ou contestação ao estabelecido.

Talvez seja possível achar uma conceituação razoável na observação de que as posições esquerdistas têm, historicamente, tendido a basear seus programas na crença da aperfeiçoabilidade do homem e da sua vida em sociedade. Os caminhos apontados variam muito, mas existe sempre a convicção de que os problemas do homem não são inerentes à sua natureza, mas fruto de determinantes e condicionantes que, sendo mudados, também mudarão o homem. O homem não é por natureza egoísta, nem a vida em sociedade tem de render sempre conflitos e neuroses, nem as guerras são inevitáveis, nem a maioria das mazelas de nossa existência individual e coletiva faz parte da ordem natural das coisas.

Em contraste, as posições da Direita tendem a presumir que existem certas características imutáveis do homem. O necessário é usar essas características para o bem comum, mesmo que o bem comum possa vir a justificar privilégios, pois, entre as verdades da Direita, está a de que realmente certas coisas não têm jeito e algumas pessoas serão sempre melhores do que outras e, portanto, se darão melhor na vida. É possível aprimorar as condições de vida de todos, inclusive porque é natural para o homem querer melhorar sua vida e é também natural que, depois de ter seus próprios problemas resolvidos, até procure ajudar nesse aprimoramento geral. Por si só, o homem é basicamente egoísta e fará tudo em seu próprio benefício. Se é assim e não há jeito a dar – pois o homem, se é aperfeiçoável, só o é até certo ponto, muito limitado – devemos equacionar a sociedade de acordo com essas condições, em soluções que podem ir da busca de um equilíbrio “natural” entre os elementos que essas características fazem entrar em jogo até a imposição de um governo “forte” ou totalitário, que, sob a orientação dos melhores, discipline e tutele os indivíduos, “para seu próprio bem”.

Os caminhos da Esquerda e da Direita, como se sugeriu, são muitos. Se a noção dada acima serve para esclarecer um pouco as coisas, também serve para mostrar como são mesmo relativos os conceitos de Esquerda e Direita, como a realidade contraria os rótulos ou distorce projetos e intenções. Um regime opressor não pode ser de Esquerda. Contudo, como modificar o homem sem, inicialmente, impor condutas e implantar implacavelmente o novo esquema? E agora – será um regime desses de Esquerda ou de Direita?

Os rótulos são muito enganosos, até mesmo porque qualquer um pode pegar um rótulo à vontade e pespegá-lo na testa, sua ou dos outros. Vimos isto em relação à democracia, vê-se isto em relação a quase tudo. O que para uns é patriotismo, para outros é traição e vice-versa. O que para uns é comunismo, para outros é uma forma de fascismo. Assim, não nos devemos fiar nos rótulos, nem nos preocupar excessivamente com eles. Necessitamos de capítulos e mais capítulos para analisar os muitos “ismos” sobre os quais lemos todos os dias nos jornais. Mas, na verdade, por mais complicados e misteriosos que eles nos pareçam, já temos os instrumentos básicos para nos defender dos rótulos. Para entender uma ideologia (ou uma das muitas formas das “ideologias básicas”), a primeira providência, que, aliás, é muito útil também em outras áreas, é procurar a fonte diretamente. Se queremos saber o que é o comunismo, devemos procurar ler o que os comunistas escrevem ou ouvir o que os comunistas dizem, não o que dizem ou escrevem deles. (Se não nos deixam ler ou ouvir comunistas, é porque querem que os rejeitemos, mas não nos permitem a dignidade de rejeitá-los por nós mesmos. Podemos não ser comunistas, mas não podemos jamais aceitar que nos façam isto). Da mesma maneira, se queremos saber o que é o liberalismo, devemos ler e ouvir os liberais. E, em relação a ambos – como em relação a todos -, devemos prestar atenção no que eles fazem, em comparação ao que dizem. A cada proposição, a cada colocação, podemos pôr em ação os nossos instrumentos. Podemos aplicar nossa “técnica de redução”. Podemos questionar. Podemos usar o conhecimento que já adquirimos, pois, quando o conhecimento nos faz pensar, ele é cumulativo, está sempre acrescentando-se a si mesmo. Podemos, enfim, não ser tiranizados nem amedrontados pelos rótulo, podemos assumir, cada vez mais, a consciência de nós mesmos, de nosso lugar na coletividade, de nossas aspirações, identidade e interesses legítimos. Podemos mesmo chegar a ver o mundo de forma ideologicamente consciente e agir de acordo com essa consciência, pois, afinal, somos o limite de nós mesmos.

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