[ Platão & Maquiavel – A Política Vista de Maneiras Bem Distintas ]

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A Política em Platão ou A Idealização da Política

“Em resumo, fui irresistivelmente levado a louvar a reta filosofia e a concluir que somente graças a ela é possível esperar ver um dia justa a política das cidades e justa a vida dos cidadãos. Sim, certamente as desgraças e desventuras do gênero humano não conhecerão fim a não ser no dia em que verdadeiros e puros filósofos tenham acesso ao poder; no dia em que por algum dom de Deus, as classes dirigentes nas mais variadas cidades sejam inflamadas pelo verdadeiro amor da sapiência, e sejam formadas por filósofos”.

A partir deste fragmento da Carta VII é possível perceber o que Platão idealizava no tocante à Política e ao Estado ou como esta deveria ser conduzida. A Política conduzida pelos filósofos, os que amam a sabedoria, poderia ser mais justa uma vez que estes homens não estariam sujeitos às tentações do corpo e teriam como dimensão principal, a espiritual. Os valores defendidos pelos filósofos deveriam, portanto, serem mais puros do que aqueles que hoje são defendidos pelos tradicionais políticos, ou seja, valores de justiça e de bem devem ser o fundamento verdadeiro de toda política autêntica e, portanto, do verdadeiro Estado.

Sobre a concepção política de Platão em sua obra A República, A. E. Taylor diz:

“Ao mesmo tempo, porém, nenhum homem vive em si e para si, e o homem progride pessoalmente tendo como alvo a bem-aventurança, é inevitavelmente animado pelo espírito missionário para com toda a comunidade. Por isso o filósofo não pode ser justo para consigo sem ser um rei-filósofo ; não pode obter a salvação sem levá-la à sua sociedade. Esse é o modo segundo o qual a República concebe a relação entre a ética e a ciência do Estado”.

Vemos aqui, mais uma vez, que a figura do rei-filósofo é uma entidade ideal que deve conduzir os negócios do Estado, uma vez que este tem condições de compreender mais profundamente a verdadeira missão do Estado: o bem comum. É importante ressaltar que esta concepção está fortemente carregada de um componente ético que pode nos levar a concluir que a política é fundada sobre a ética, não a ética sobre a política.

O Estado idealizado por Platão é dividido em classes. A primeira classe é formada pelos camponeses, artesãos e comerciantes. A seguir temos os defensores do Estado aos quais não seria concedida nenhuma posse de bens ou riquezas. Ainda sobre a estrutura deste Estado ideal, Platão acredita que cabe ao Estado proporcionar educação adequada aos melhores jovens, para que não se mudem as leis que regem a educação, e para que não se mude o ordenamento do Estado.

O Estado perfeito para Platão deve ser possuidor das chamadas quatro virtudes cardeais: a justiça, a sapiência, a fortaleza e a temperança. A sapiência trataria da forma correta de comportar-se do Estado com relação a si e com relação aos outros Estados. Essa virtude é possuída somente pelos guardiões perfeitos. O Estado é sábio pela classe dos seus governantes.

A capacidade de conservar com constância a opinião reta em matéria de coisas perigosas ou não, sem se deixar vencer pelos prazeres ou dores, pelos medos ou pelas paixões é a virtude da fortaleza. Esta compete aos guerreiros.

A temperança é uma espécie de ordem, de domínio ou disciplina dos prazeres e dos desejos. O Estado temperante é aquele no qual os mais fracos estão de acordo com os mais fortes e os inferiores em plena harmonia com os superiores.

E quanto à justiça podemos dizer que no Estado ideal de Platão ela coincide com o princípio segundo o qual o Estado é construído: cada um deve fazer somente aquilo que por natureza e, portanto, por lei, é chamado a fazer. Quando cada cidadão e cada classe atende às próprias funções do melhor modo, então a vida do Estado se desenrola de maneira perfeita e temos exatamente o Estado justo.

Platão descreve o Estado ideal como sendo uma aristocracia no sentido mais forte e mais significativo do termo. Seria, portanto um Estado guardado e governado pelos melhores por natureza e por educação, fundando sobre a virtude como valor supremo e caracterizado pela primazia, nos seus cidadãos, da parte racional da alma.

O Estado ideal e o aristocrata que lhe corresponde são caracterizados pelo domínio inconteste da racionalidade, com a qual coincide substancialmente a virtude e também a liberdade. A razão deve não somente dominar os chefes de Estado, mas também os guardiães-guerreiros, na medida em que regula a alma irascível nela produzindo a virtude da coragem, e na classe inferior na medida em que regula a alma concupiscível nela produzindo temperança. Esse é o Estado são, e, como tal, feliz.

A Política em Maquiavel ou Uma Visão Menos Idealista a Respeito da Política

Maquiavel ao contrário de Platão não era um idealista quanto à Política. Podemos ver isso claramente na obra de Newton Bignotto, Maquiavel. É interessante ressaltar que Maquiavel era um profundo estudioso da história e como ele mesmo disse, “os homens repetem suas paixões e sua forma de agir ao longo dos tempos e, por isso, podemos nos servir da história para tomar decisões no presente”. Dessa forma a análise que Maquiavel apresenta a respeito da Política é totalmente fundamentada em acontecimentos históricos anteriores.

Outro ponto que podemos destacar a respeito da obra de Maquiavel é que o mesmo parece ter passado para a História como um autor bastante incompreendido. Muitos associam o nome do mesmo a práticas nefastas e até mesmo inescrupulosas. Ao estudar o pensamento político de Maquiavel pode perceber que o mesmo não nutria nenhuma ilusão quanto ao ser humano e que enxergava que há uma certa tendência nas ações humanas para aquilo que podemos classificar como condenáveis. Como disse Bignotto: “O que ele percebia, no entanto, era não que a crueldade fosse boa em si mesma, mas que a simples condenação dos atos dos governantes não ajudava nem a compreendê-los, nem a evitar seus efeitos”. Ou seja, não basta somente condenar determinadas ações dos governantes, se faz mesmo necessário a compreensão de tal para que no futuro posse se evitar tal ação.

Maquiavel compreendeu como poucos a questão da mutabilidade da política. Como disse certa vez um político brasileiro, “A política é como uma nuvem. Você olha num momento é vê uma coisa. Olha novamente e já outra coisa”, assim Maquiavel percebia o desenrolar das ações na política italiana de sua época. Quando se compreende bem a questão da mutabilidade é possível melhor se preparar para a mudança e isso só é possível conhecendo o funcionamento do poder em suas várias circunstâncias.

Partindo do pressuposto da imitação, Maquiavel acreditava que usar o passado como guia é a melhor maneira de evitar erros que com muita frequência arruínam os homens poderosos. Talvez essa seja outra grande diferença das visões políticas de Platão e de Maquiavel. Enquanto que Platão idealizava um governante perfeito, um rei-filósofo, Maquiavel entendia que deve-se aprender com o passado, uma vez que há uma grande tendência do homem em repetir suas paixões como foi dito acima.

Dos homens, com efeito, pode-se dizer em geral o seguinte: que eles são ingratos, volúveis, simuladores e dissimuladores, inimigos dos perigos e ávidos de ganho…”. Podemos percebe nestas palavras que Maquiavel não fazia idealizações acerca dos homens. Talvez muitos podem até o considerar um tanto quanto pessimista quanto ao ser humano. Porém, é importante lembrar como Maquiavel adquiriu seus conhecimentos acerca da Política e de como agem aqueles que detêm o poder. Suas palavras servem mais de alerta aos atores políticos para que evitassem agir na pressuposição de que se pode contar com a bondade alheia, pois isto poderá lhes levar à ruína.

Faz necessário então salientar que Maquiavel não quer dizer que todos os homens sejam ruins e ajam sempre com maldade. Esta é uma das grandes injustiças para com o pensamento deste autor. Se assim fosse seria praticamente impossível a convivência em sociedade e assim acabaríamos entrando numa guerra “de todos contra todos”, como temia Hobbes. A lição que nos dá o pensador florentino é que não podemos agir na suposição de que os homens corresponderão às nossas expectativas e, por isso, devemos sempre estar precavidos contra a manifestação de sua natureza má.

Ainda dentro da questão da natureza do poder e como chegar ao mesmo, o pensador florentino nos alerta para o fato de que aquele que chega ao poder pelas mãos dos outros, ou por pura sorte, enfrenta as maiores dificuldades para conservá-lo. Além disso, o simples fato de ser capaz de persuadir os povos de alguma coisa não garante que eles o seguirão para sempre. É possível novamente perceber como Maquiavel insiste em chamar a atenção para a natureza mutável dos homens e que por conta disso, o governante não pode deitar nos louros da vitória.

Um alerta muito importante que o pensamento político de Maquiavel dá aos governantes é sobre a finitude das coisas. “Nada é mais constante do que essa verdade: tudo o que existe no mundo tem limites em sua duração”. Logo se vê que o pensador não alimenta ilusões sobre a eternidade na natureza das coisas humanas. É possível afirmar que as coisas humanas resistem apenas o tempo que lhes é possível. Esta advertência também serve para dizer aos governantes que herdam o poder já legitimado por uma longa prática, e que têm a ilusão de que nunca deixarão de possuir tal poder, são muitas vezes derrotados por ignorar esta condição. Esta postura pode ser vista como sendo soberba em não se preparar para situações difíceis. Como já foi dito várias vezes neste texto, para Maquiavel as coisas humanas estão em constante mudança.

Apesar de a natureza humana tender para a repetição, especialmente quando determinada prática conduz ao sucesso, para Maquiavel, o homem em geral e os governantes em particular ainda possuem muita dificuldade em reconhecer que nem sempre um grande comandante ou governante é capaz dominar todas as possibilidades contidas na história, isto é, dificilmente se saberá quando determinada situação particular irá evoluir. Quanto a isso Maquiavel chega a dizer que a fortuna torna cegos os homens, para melhor executar os seus desígnios.

Uma das grandes injustiças quanto ao pensamento de Maquiavel se refere a expressão muito difundida como sendo de sua autoria, que diz que os fins justificam os meios. De acordo com Bignotto, Maquiavel nunca afirmou tal coisa. Na verdade o que ele pretendia era mostrar que a política constitui uma esfera da existência humana que, estando relacionada com várias outras, não pode ser confundida nem com a ética nem com a religião.

No Estado tal como Platão idealizou era de máxima importância a seleção de jovens dotados de natureza filosófica autêntica, ou seja, jovens nos quais a parte racional da alma domina sobre as outras. Para isso se fazia necessária uma educação voltada para tal. Ao contrário de Maquiavel, Platão não procurava basear sua visão política em experiências passadas, mas sim num processo de construção do que deveria ser. Já para Maquiavel a crença de que a natureza humana é transparente e pode ser compreendida em toda sua extensão não fazia parte de suas reflexões. E por conta disso a vida política se tornava tão complexa, uma vez que ela existe num terreno no qual nem sempre as intenções de todos os atores são conhecidas ao mesmo tempo.

Considerações finais

Desde que comecei a estudar o pensamento político na filosofia de Platão percebi o quanto suas ideias possuíam um viés de utopia. Creio que esse pensamento se deva por conta de enxergar nas palavras de Platão um Estado bastante idealizado. Acredito que a intenção de Platão era colocar para os demais que aquele é que deveria ser o modelo de Estado a ser buscado, perseguido. Partindo de uma perspectiva bastante otimista posso dizer que concordo com Platão. Porém, diante do que vemos hoje no mundo político, com enfoque especial em nosso país, creio que Platão foi bastante utópico. Acontece que esta concepção um tanto utópica de Política em Platão exprime um ideal realizável no interior do homem, ou seja, na sua alma. Se o Estado verdadeiro não existe fora de nós, podemos, no entanto, construí-lo em nós mesmos, seguindo a política verdadeira no nosso íntimo.

Assim sendo, é possível afirmar que para a Platão a construção do Estado ideal passa primeiramente pela construção de homens ideais, ou melhor, governantes ideais que sejam guiados não pelas paixões materiais ou desejos puramente físicos, mas principalmente pelo amor à sabedoria, em suma, governante ideal para construir o Estado ideal, só pode mesmo ser um rei-filósofo.

Já para Maquiavel não encontramos nada do idealismo platônico. É possível mesmo afirmar que Maquiavel comparado a Platão soa bastante pessimista. Talvez alguns podem até mesmo dizer que Maquiavel, na verdade, é realista. O pensador florentino demonstra não acreditar que seja possível haver um governante ideal, que seja voltado quase que exclusivamente para as coisas mais elevadas do espírito humano. Em seus textos Maquiavel o tempo todo alerta para as fraquezas da alma humana, para a sua natureza pouco confiável e especialmente para o caráter de grande mutabilidade das coisas do homem. O Estado platônico não é possível para Maquiavel, uma vez que o governante ideal não é possível existir em virtude da natureza humana que tende a levá-lo para bem longe desta idealização.

Ainda no pensamento de Maquiavel é importante ressaltar que a seu ver a luta em torno do poder é infinita, uma vez que os grupos em conflito não querem alcançar o mesmo objetivo e por isso a satisfação de um é sempre a insatisfação do outro. Essa assimetria de desejos é a chave para que possamos compreender por que não é possível sonhar com uma sociedade totalmente estável e imune ao tempo. Ideias estas muito recorrentes na visão platônica da política. Para Maquiavel, os homens estão sempre inquietos e dispostos a lutar por suas fantasias, pois “está em sua natureza querer e poder desejar tudo, mas a fortuna limita seus meios de conquistar, do que resulta um perpétuo descontentamento”.

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