[ Reflexões Sobre o Poder ]

“Em primeiro lugar, para que haja o que nós chamamos de poder, é preciso que concebamos as pessoas como social e politicamente diferentes umas das outras. Que, de alguma forma, aceitemos que as regras e modos de tratamento dispensáveis a uns não valem para outros. É preciso, em suma, imaginar as relações sociais marcadas por desigualdades”.

“Em segundo lugar, concebido o modo particular como as pessoas se desigualam – como professor e monitor, patrão e empregado, rei e súdito etc. – é preciso não só especificar essas diferenças, mas também legitimá-las.”

“Já sabemos porque Platão deslegitima a democracia; porque ela é mera dominação ou tirania da maioria despreparada”.

“Ele acredita que, se as leis forem produzidas com sabedoria – não qualquer sabedoria, por certo, mas a sabedoria da vida boa, da vida de acordo com a ideia do bem –, a governança da pólis será boa. Ele legitima, portanto, pelo resultado: a vida boa ou a vida que valeria a pena viver se pudéssemos. Mas para fazer leis assim tão boas e cheias de sabedoria, seria preciso um legislador igualmente bom e cheio de sabedoria. E onde encontrá-lo? Platão responde: aqui mesmo, na sua frente! Os filósofos!”

“É na crença dos súditos que qualquer um destes discursos torna-se eficiente para fundamentar um modo qualquer de exercício do poder”.

“O poder é algo que se conquista e se mantém com muito esforço. Não é uma dádiva natural, como os discursos legitimadores fazem crer. É preciso uma grande disposição de espírito para ser vitorioso no jogo da dominação. Disposição essa que Maquiavel chamou de virtu.”

“O poder é o resultado de um embate, de uma guerra. Tanto é que Maquiavel chega a afirmar que o conhecimento mais importante que um príncipe deve ter é o da arte da guerra. Não que ele vá necessariamente comandar exércitos em batalhas, mas porque na política tudo é guerra”.

“Maquiavel não é um sádico que nos incentiva à vilania a qualquer preço. Ele é apenas um realista. Alguém que acredita que a política é o que é porque o homem é o que é. Somos seres desejantes e como tais desejamos conjuntamente benefícios escassos, assim como rejeitamos conjuntamente malefícios abundantes. Em suma, apenas uns poucos podem se dar bem na vida e ainda por cima é preciso que para isso uma multidão se dê mal ou não se dê tão bem”.

“Podemos querer e alcançar tudo, só não podemos deixar de desejar. Por isso o poder será sempre o resultado de luta e não de harmonia”.

“Quando fazemos algo em nossa vida privada, essas ações geram consequências apenas para nós mesmos, mas quando somos soberanos, quando exercemos poder sobre outros, as consequências de nossas decisões afetam a muitos, senão a todos. Na nossa vida privada podemos agir segundo princípios rígidos, pois nós é que sofreremos as consequências boas e más de nossas ações, mas, quando somos governantes, não podemos nos dar ao mesmo luxo”.

“O exercício do poder é uma arte reativa. Reage-se aos desafios que vão surgindo na luta pela manutenção e conquista do poder”.

“Foucault deixa claro que é um erro tratar poder como um objeto. Poder não é algo que se tem, mas algo que se faz. Uma relação, e não uma coisa”.

“A questão central para se compreender o poder como uma relação não é propriamente por que quem manda, manda, mas por que quem obedece, obedece? É a suditificação de alguém e não a consagração como soberano que deveria nos chamar a atenção”.

“A observar e tentar compreender não como pensam os líderes, mas como pensam os liderados. É na obediência submissa do liderado que o poder se sustenta”.

“Espinosa, filósofo do século XVI, dizia que dominar é fazer o outro crer que o mundo que alegra você o alegrará também. Dito de outra maneira, o poder se exerce difundindo a ideia de que um determinado modo de vida, que é bom porque nos alegra, deveria ser o modo de vida de todos. Ou afirmando que o modo de vida que nos alegra é o melhor de todos”.

“Valorar os saberes e práticas como certo e errado, bom e mau gosto e desqualificar os saberes e opiniões contrárias são as principais estratégias do jogo de imposição dos saberes”.

“Todo campo social é hierarquizado, ou seja, há nele dominante e dominado, os que têm e os que não têm poder”.

 

Trechos do livro, “A filosofia explica grandes questões da humanidade“, de Clóvis de Barros Filho e Júlio Pompeu.

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