[ Ruptura: A crise da democracia liberal ]

Alguns trechos que destaquei da leitura deste livro que pode ser muito útil para compreender muitas turbulências pelas quais as democracias pelo mundo afora estão passando.

A linguagem utilizada pelo autor é bastante clara e, creio, acessível a boa parte dos leitores. Um dado curioso sobre esta obra do Manuel Castells: já nos finalmentes do livro ele diz que todas as tabelas e gráficos que ele utilizou na pesquisa para escrever o livro estão no site da editora.

Existe, porém, uma crise ainda mais profunda, que tem consequências devastadoras sobre a (in)capacidade de lidar com as múltiplas crises que envenenam nossas vidas: a ruptura da relação entre governantes e governados.

Trata-se do colapso gradual de um modelo político de representação e governança: a democracia liberal que se havia consolidado nos dois últimos séculos, à custa de lágrimas, suor e sangue, contra os Estados autoritários e o arbítrio institucional.

Na raiz desse novo panorama político europeu e mundial, está a distância crescente entre a classe política e o conjunto dos cidadãos.

Na realidade, a democracia se constrói em torno das relações de poder social que a fundaram e vai se adaptando à evolução dessas relações, mas privilegiando o poder que já está cristalizado nas instituições.

Se for rompido o vínculo subjetivo entre o que os cidadãos pensam e querem e as ações daqueles a quem elegemos e pagamos, produz-se o que denominamos crise de legitimidade política; a saber, o sentimento majoritário de que os atores do sistema político não nos representam.

A política se profissionaliza, e os políticos se tornam um grupo social que defende seus interesses comuns acima dos interesses daqueles que eles dizem representar: forma-se uma classe política, que, com honrosas exceções, transcende ideologias e cuida de seu oligopólio.

A identidade política dos cidadãos, construída a partir do Estado, vai sendo substituída por identidades culturais diversas, portadoras de sentido para além da política.

Se os que devem aplicar as regras de convivência não as seguem, como continuar delegando a eles nossas atribuições e pagando nossos impostos?

A luta pelo poder nas sociedades democráticas atuais passa pela política midiática, pela política do escândalo e pela autonomia comunicativa dos cidadãos.

As mensagens negativas são cinco vezes mais eficazes em sua influência do que as positivas.

O temor da globalização incita a buscar refúgio na nação. O medo do terrorismo predispõe a invocar a proteção do Estado. O multiculturalismo e a imigração, dimensões essenciais da globalização, induzem o chamamento à comunidade identitária.

Em todas as sociedades, os setores sociais mais vulneráveis são os que reagem, movidos pelo medo, à mais poderosa das emoções, e se mobilizam em torno daqueles que dizem aquilo que o discurso das elites não lhes permite dizer.

Ao poder da Rede opõe-se o poder da identidade.

Em tempos de incertezas costuma-se citar Gramsci quando não se sabe o que dizer. Em particular, sua célebre assertiva de que a velha ordem já não existe e a nova ainda está para nascer. O que pressupõe a necessidade de uma nova ordem depois da crise. Mas não se contempla a hipótese do caos. Aposta-se no surgimento dessa nova ordem de uma nova política que substitua a obsoleta democracia liberal que, manifestamente, está caindo aos pedaços em todo o mundo, porque deixa de existir no único lugar em que pode perdurar: a mente dos cidadãos.

Não estaríamos diante do velho esquema da esquerda, de esperar a solução mediante o aparecimento de um novo partido, o autêntico transformador que finalmente seja a alavanca da salvação humana? E se tal partido não existir? E se não pudermos recorrer a uma força externa àquilo que somos e vivemos para além de nossa cotidianidade? Qual é essa nova ordem que necessariamente deve existir e substituir aquilo que morre? Ou será que estamos numa situa-ção historicamente nova, na qual nós, cada um de nós, devemos assumir a responsabilidade de nossas vidas, das de nossos filhos e de nossa humanidade, sem intermediários, na prática de cada dia, na multidimensionalidade de nossa existência? Ah, a velha utopia autogestionária. Mas por que não? E, sobretudo, qual é a alternativa? Onde estão essas novas instituições dignas da confiança de nossa representação?

[ Sobre a Tirania – Mais Alguns Trechos ]

O que a grande pensadora política Hannah Arendt queria dizer com totalitarismo não era um Estado todo-poderoso, e sim a eliminação da diferença entre a vida privada e a vida pública.

O mais inteligente de todos os nazistas, o jurista Carl Schmitt, explicou em linguagem clara a essência do fascismo. A maneira de destruir todas as regras, declarou, é concentrar-se na ideia de exceção. Um líder nazista supera seus adversários construindo a convicção geral de que o momento presente é excepcional e, depois, transformando esse estado de exceção numa emergência permanente. A partir daí, os cidadãos trocam a liberdade real por uma falsa segurança.

As pessoas que lhe garantem que você só ganha segurança em troca da liberdade em geral querem negar-lhe ambas.

Quando os tiranos falam de extremismo, referem-se apenas a pessoas que não se encontram na corrente dominante naquele momento em particular.

Os autoritários de hoje também são gestores do terror, e se há alguma diferença é o fato de serem mais criativos.

Na política da eternidade, a sedução de um passo mítico nos impede de contemplar futuros possíveis. O hábito de concentrar-se na vitimização embota o impulso de autocorreção.

[ Sobre a Tirania – Alguns Trechos ]

Livrinho que estou lendo.

Depois publicarei uma segunda leva de trechos que me chamaram a atenção.

Inicialmente, uma sinopse do livro:

“Dias após a eleição de Donald Trump, o historiador Timothy Snyder postou um texto no Facebook que rapidamente foi compartilhado por dezenas de milhares de pessoas. Ele começava assim: “Não somos mais sábios do que os europeus que viram a democracia dar lugar ao fascismo, ao nazismo ou ao comunismo no século XX. Nossa única vantagem é poder aprender com a experiência deles”. O post então apresentava vinte lições tiradas do século XX e adaptadas para o mundo de hoje – ideia que Snyder desenvolve e aprofunda em “Sobre a tirania”, um livro curto, para ser lido numa sentada, mas ao qual se deve voltar regularmente para recuperar o fôlego e a inspiração que permitam enfrentar os desafios do presente”.

Aristóteles advertira que a desigualdade traz instabilidade, enquanto Platão acreditava que os demagogos tiravam proveito da liberdade de expressão para tomar o poder como tiranos.

No começo do século XX, tal como no começo do XXI, essas esperanças foram ameaçadas por novas visões de políticas de massa em que um líder ou um partido afirmavam representar diretamente a vontade do povo. As democracias europeias descambaram para o autoritarismo de direita ou para o fascismo nas décadas de 1920 e 1930. A União Soviética comunista, criada em 1922, levou seu modelo para a Europa na década de 1940.

Os fascistas rejeitavam a razão em nome da força de vontade, negando a verdade objetiva em favor de um mito glorioso articulado por líderes que afirmavam ser a voz do povo.

A obediência por antecipação é uma tragédia política.

Em seus primeiros momentos, a obediência por antecipação se limita a uma adaptação instintiva, sem reflexão, à nova situação.

Milgram concluiu que as pessoas são particularmente receptivas a novas regras num ambiente novo. De forma surpreendente, mostram-se dispostas a maltratar e a matar outras pessoas a serviço de algum propósito novo se assim forem instruídas por uma nova autoridade. “Encontrei tanta obediência”, lembrou Milgram, “que não vi necessidade de levar o experimento à Alemanha.”

A vida é política, não porque o mundo se importa com como você se sente, mas porque o mundo reage ao que você faz.

A SS surgiu como uma organização fora da lei, tornou-se uma organização que transcendia a lei e acabou como uma organização que desfazia a lei.

Em setembro de 1938, as grandes potências — França, Itália e Grã-Bretanha, governada então por Neville Chamberlain — chegaram a cooperar com a Alemanha nazista na partilha da Tchecoslováquia. No verão de 1939, a União Soviética aliou-se à Alemanha nazista, e o Exército Vermelho juntou-se à Wehrmacht na invasão da Polônia.

O último modo é a exploração indevida da fé. Isso envolve tipos de afirmações autodivinizantes que o presidente fez ao dizer “Só eu posso resolver isso” ou “Eu sou a voz de vocês”. Quando o sentimento fé se desloca dessa maneira do céu à terra, não sobra espaço para as pequenas verdades de nosso discernimento e experiências individuais.

Os fascistas desprezavam as pequenas verdades da experiência cotidiana, amavam palavras de ordem que ressoavam como uma nova religião e preferiam mitos de criação à história ou ao jornalismo.

“Se o pilar principal do sistema é viver uma mentira”, escreveu Havel, “não surpreende que a maior ameaça a ele seja viver na verdade.”

O poder deseja que seu corpo amoleça na poltrona e que suas emoções se dissipem na tela.

Para que a resistência tenha sucesso, é preciso que duas fronteiras sejam cruzadas. Primeiro, as ideias a respeito de mudança têm de envolver pessoas com vários históricos e que não concordem em tudo. Segundo, as pessoas precisam se encontrar em lugares que não são seus lares e com gente que antes não fazia parte de seu grupo de amigos. Um protesto pode ser organizado por meio de redes sociais, porém nada é real se não acaba nas ruas. Se os tiranos não percebem consequência alguma para seus atos no mundo tridimensional, nada vai mudar.

O que a grande pensadora política Hannah Arendt queria dizer com totalitarismo não era um Estado todo-poderoso, e sim a eliminação da diferença entre a vida privada e a vida pública

[ Alguns trechos do livro “Subliminar” ]

“Parece que quanto mais forte for a ameaça ao fato de alguém se sentir bem consigo mesmo, maior a tendência a enxergar a realidade através de uma lente distorcida”.

“Há duas maneiras de chegar à verdade: a maneira do cientista e a do advogado. Os cientistas reúnem evidências, buscam regularidades, formam teorias que expliquem suas observações e as verificam. Os advogados partem de uma conclusão acerca da qual querem convencer os outros, e depois buscam evidências que a apoiem, ao mesmo tempo que tentam desacreditar as evidências em desacordo”.

“A mente humana foi projetada para ser tanto cientista quanto advogado, tanto um buscador consciente da verdade objetiva quanto um advogado inconsciente e apaixonado por aquilo que quer acreditar. Essas duas abordagens juntas competem para criar nossa visão de mundo”.

Subliminar, de Leonard Mlodinow

[ Redes de Indignação e Esperança: Movimentos Sociais na Era da Internet, de Manuel Castells ]

“A confiança desvaneceu-se. E a confiança é o que aglutina a sociedade, o mercado e as instituições. Sem confiança nada funciona. Sem confiança o contrato social se dissolve e as pessoas desaparecem, ao se transformarem em indivíduos defensivos lutando pela sobrevivência”.

“…o medo, essa emoção paralisante em que os poderes constituídos se sustentam para prosperar e se reproduzir, por intimidação ou desestímulo – e, quando necessário, pela violência pura e simples, seja ela disfarçada ou institucionalmente aplicada”.

“Mas o big bang de um movimento social começa quando a emoção se transforma em ação”.

“Reconheço que qualquer levante social – e a Tunísia não foi exceção – ocorre como expressão de protesto contra más condições econômicas, sociais e políticas, tais como desemprego, carestia, desigualdade, pobreza, brutalidade policial, falta de democracia, censura e corrupção como modo de vida de todo o Estado”.

[ Homo Deus: Um Livro que Vale a Pena ser Lido – Parte Três ]

Dando continuidade a uma série de posts iniciada em 27 de junho de 2017 aqui, trago mais alguns trechos do livro Homo Deus – Uma Breve História do Amanhã.

Toda cooperação humana em grande escala baseia-se em última análise na nossa crença em ordens imaginadas.

Queremos crer que nossa vida tem algum significado objetivo e que nossos sacrifícios têm importância para algo que está além das histórias em nossa cabeça. Na verdade, contudo, a vida da maioria das pessoas só tem significado dentro da rede de histórias que elas contam umas para as outras.

…assim que a história se desenrola. Pessoas tecem uma rede de significados, acreditam nela piamente, porém mais cedo ou mais tarde a teia se desfaz, e, quando olhamos para trás, não conseguimos compreender como alguém a levou a sério.

Nenhum governante resiste à tentação de tentar alterar a realidade com uma canetada e, caso um desastre ocorra, a solução parece consistir em escrever mais memorandos e emitir mais códigos, decretos e ordens.

Se você distorce demasiadamente a realidade, isso vai enfraquecê-lo, e você não será capaz de competir com rivais que tenham uma visão mais clara. Por outro lado, você não vai conseguir organizar massas de pessoas sem se apoiar efetivamente em alguns mitos ficcionais. Se ficar agarrado à realidade pura, sem misturar nela alguma ficção, poucos o seguirão

A história não é uma narrativa única, mas milhares de narrativas alternativas. Sempre que escolhemos contar uma delas, escolhemos também silenciar outras.

Ao se examinar a história de qualquer rede humana, é recomendável parar de vez em quando e olhar as coisas da perspectiva de alguma entidade real. Como se sabe se uma entidade é real? Muito simples — apenas pergunte a si mesmo: “Ela é capaz de sofrer?”. Quando pessoas derrubam e incendeiam o templo de Zeus, Zeus não sofre. Quando o euro se desvaloriza, o euro não sofre. Quando um banco vai à bancarrota, o banco não sofre. Quando um país é derrotado na guerra, o país na verdade não sofre. É só uma metáfora. Em contraste, quando um soldado é ferido em combate, ele sofre. Quando um camponês faminto não tem o que comer, ele sofre. Quando uma vaca é separada de seu bezerro recém-nascido, ela sofre. Isso é realidade.

Nós sempre acreditamos “na verdade”, só os outros é que acreditam em superstições.

Definir religião como “crença em deuses” também é problemático. Tendemos a dizer que uma cristã devota é religiosa porque acredita em Deus, enquanto um comunista ardente não é religioso porque o comunismo não tem deuses. Entretanto, a religião é criada por humanos, e não por deuses, e é definida por sua função social, e não pela existência de deidades. Religião é qualquer coisa que confira legitimidade sobre-humana a estruturas sociais humanas. A religião legitima normas e valores humanos ao alegar que eles refletem leis sobre-humanas.

As religiões se diferenciam nos detalhes de suas histórias, em seus mandamentos concretos e nas recompensas e punições que prometem. Assim, na Europa medieval, a Igreja católica alegava que Deus não gostava de gente rica. Jesus disse que seria mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Para ajudar os ricos a entrar no reino de Deus, a Igreja os incentiva a doar muito dinheiro para a caridade, ameaçando os mesquinhos de arder no inferno. O comunismo moderno tampouco gosta dos ricos, mas os ameaça com um conflito de classes neste mundo, e não com enxofre ardente após a morte.

[ Saber Envelhecer, de Cícero ]

“O essencial é usar suas forças com parcimônia e adaptar seus esforços a seus próprios meios”.

“A vida segue um curso muito preciso e a natureza dota cada idade de qualidades próprias. Por isso a fraqueza das crianças, o ímpeto dos jovens, a seriedade dos adultos, a maturidade da velhice são coisas naturais que devemos apreciar cada uma em seu tempo”.

“Gosto de descobri um verdor num velho e sinais de velhice num adolescente. Aquele que compreender isso envelhecerá talvez em seu corpo, jamais em seu espírito”.

“Assim como o vinho, o caráter não azeda necessariamente com a idade”. “O tempo perdido jamais retorna e ninguém conhece o futuro. Contentemo-nos com o tempo que nos é dado a viver, seja qual for”.

“Para ser aplaudido, o ator não tem necessidade de desempenhar a peça inteira. Basta que seja bom nas cenas em que aparece. Do mesmo modo, o sábio não é obrigado a ir até o aplauso final. Uma existência, mesmo curta, é sempre suficientemente longa para que se possa viver na sabedoria e na honra”.

“A mais bela maneira de morrer é com a inteligência intacta e os sentidos despertos, deixar a natureza desfazer lentamente o que ela fez”.

Marco Túlio Cícero, em latim Marcus Tullius Cicero (Arpino, 3 de Janeiro de 106 a.C. — Formia, 7 de Dezembro de 43 a.C.), foi um filósofo, orador, escritor, advogado e político romano. Foi assassinado pelo centurião Herênio a mando de seu inimigo político Marco Antônio.