[ Toda Escolha Cobra Um Preço ]

Escolhas

A vida é feita de escolhas. Quando se escolhe algo, automaticamente se abre mão daquilo que não foi escolhido. Isso é praticamente um axioma. E também tem um quê de Filosofia de Buteco (vou sugerir essa disciplina como optativa ao Colegiado do Curso de Filosofia da UVA).

Observando toda a celeuma que há por conta das crises política e econômica pelas quais passam o nosso país tenho a impressão que muitos estão ignorando o axioma das escolhas ou se fazem passar por ignorantes.

Se tentarmos analisar tudo isso de uma maneira menos apaixonada e mais racional poderemos enxergar as muitas escolhas que os principais atores de todo esse drama fizeram ao longo dos anos. Vamos a algumas:

  • PT e PMDB escolheram ser aliados em duas eleições. Ou será que alguma força oculta obrigou algum deles a fazer isso?
  •  Foram feitas inúmeras escolhas por parte do Governo Federal no tocante à política econômica. Algumas acertadas outras equivocadas. E ainda teve aquelas equivocadas que continuaram a ser escolhidas.
  • A articulação política entre os Poderes Executivo e o Legislativo também foi sendo feita através de inúmeras escolhas. Escolheu-se os aliados e até mesmo os adversários. Bem como teve político que escolheu o seu lado (situação ou oposição).

E cada uma dessas escolhas teve uma ou várias consequências. E mais, ainda hoje estão reverberando e vão reverberar muito!

Além do mais, como a roda da vida não deixa de girar enquanto as crises se aprofundam, escolhas vem sendo feitas, não somente pelo governo mas também por quem não é governo. E assim como escolhas passadas tiveram consequências no presente, essas escolhas de agora irão ter consequências no futuro.

O que muito me deixa espantado é que muitos daqueles que considero como sendo pessoas sensatas, de bom nível intelectual e de civilidade, perdem tempo com uma briga boba, infantil, ingênua, maniqueísta e insana. E como tem dedicado toda a sua energia mental e intelectual apenas em alimentar essa briga boba, essas pessoas deixam de ver além, de compreender o poder das escolhas que foram feitas e suas consequências, passando a ter uma visão míope e torpe a respeito de toda essa problemática que por conta de sua imensa complexidade não tem como ser reduzida a uma mera briga de torcidas.

[ Sobre o Desembarque do PMDB do Governo ]

Brasilia Sociedade Secreta

Em primeiro lugar preciso dizer que só acredito em desembarque de partido político da base aliada de qualquer governo quando acontecer a entrega dos cargos ocupados por esse partido. Sem isso, a meu ver, o desembarque é uma mentira só, jogo de cena, teatrinho…

O PMDB, todos aqueles que acompanham o noticiário político brasileiro desde a redemocratização sabem que é um velho conhecido e praticante fiel do fisiologismo. Pausa para o momento dicionário!

Fisiologismo é um tipo de relação de poder político em que ações políticas e decisões são tomadas em troca de favores, favorecimentos e outros benefícios a interesses privados, em detrimento do bem comum. É um fenômeno que ocorre frequentemente em Parlamentos, mas também no Executivo, e está estreitamente associado à corrupção política, uma vez que os partidos políticos fisiologistas apoiam qualquer governo – independentemente da coerência entre as ideologias ou planos programáticos – apenas para conseguir concessões deste em negociações delicadas.

Pronto, agora que já temos uma definição para fisiologismo podemos ir adiante…

E como ficou demonstrado na última reforma ministerial do governo Dilma 2.0 o apetite do PMDB é praticamente insaciável. Até mesmo uma das mais cobiçadas pastas que historicamente, desde Lula I e Lula II, bem como como Dilma I, ficou nas mãos do PMDB. A saber, o Ministério da Saúde. Agora todos esses Ministérios deverão ser entregues de volta à Presidente para que a mesma possa acomodar novos nomes lá. Bem, isso em tese, pois há pelo menos três ministros do PMDB que já sinalizam não querer largar os ossos, ou melhor, as pastas. No caso, os ocupantes dos ministérios da Saúde, da Ciência e Tecnologia e o da Agricultura.

Com relação a estes três é importante fazer um comentário paralelo. O ocupante do Ministério da Ciência é Tecnologia é conhecido por ser uma espécie de pau-mandado do Presidente da Câmara, o multi-investigado e já réu na Operação Lava Jato, Eduardo Cunha. E a ocupante do Ministério da Agricultura, é velha conhecida dos ambientalistas, dos quais já recebeu o apelido de Miss Motosserra. Sobre a Ministra Kátia Abreu comenta-se até que ela, para não deixar a Esplanada dos Ministérios, resolva deixar o PMDB.

Como comentei em um post anterior (https://alemdosoutdoors.org/2016/03/…) “toda ação corresponde a uma reação de igual intensidade e sentido contrário”. Isso é nada mais nada menos que a Terceira Lei de Newton. Ou seja, esse desembarque do PMDB (caso aconteça realmente o que cito no parágrafo de abertura deste texto) vai gerar uma, ou melhor, várias reações. Bem como, as ações que o governo executar também terão suas reações. Que reações serão essas? Isso são incógnitas que somente o tempo vai desvendar! Mas podemos especular

Uma das primeiras reações que já podemos vislumbrar no curto prazo é que estará aberta a temporada de negociações de apoio contra o processo de impeachment em troca de ministérios e cargos. Vejamos só: serão em tese sete ministérios (isso se aqueles três que cito lá em cima realmente largarem as pastas!!) e pelo menos cerca de seiscentos cargos, segundo a imprensa. E como a prioridade número zero do governo, no momento é salvar o próprio do impeachment já podemos imaginar que por um punhado de votos vale até mesmo vender a alma.

A consequência desta primeira iniciativa será uma verdadeira Disneylandia do fisiologismo. Os partidos do chamado baixo clero do Congresso deverão ser bastante cortejados para trocar seus votos por alguns cargos ou quiçá ministérios. Não ficarei surpreso em ver, como disse o Jaques Wagner, o novo governo Dilma tendo ministros do PTN, PHS, PT do B, dentre outras siglas pouco conhecidas e um tanto quanto obscuras. E isso também terá consequências em algum momento.

Enfim, é preciso sempre lembrar da Terceira Lei de Newton e também que toda e qualquer escolha que se faça vai gerar uma ou várias consequências. O momento atual pelo qual passa o governo Dilma II não ganhou força por destino-manifesto divino e nem muito menos o PMDB brotou no governo por geração espontânea. Eles foram escolhidos para integrar o governo. Isso é um fato. E contra fatos… Vocês já sabem!!! ;-

[ No passado, títulos de nobreza. No presente, cargos ]

Os cargos na administração pública ou em empresas estatais é uma das maiores moedas de troca em nosso país. Assim que um governante assume, seja em qual esfera for, municipal, estadual ou federal, logo logo é iniciado o loteamento de cargos. Quase nunca obedecendo algum critério técnico, especialmente os cargos de primeiro escalão. São as famosas indicações políticas.

Os melhores cargos, os melhores ministérios, as melhores secretarias e diretorias sempre ficam com quem está mais próximo do mandatário de plantão. Quem está mais distante vai ter que se contentar mesmo com os escalões inferiores.

Na época que a família real portuguesa chegou ao Brasil em 1808 e no período imperial (Dom Pedro I e II), as coisas também eram mais ou menos do mesmo jeito. A diferença é que naquela época se distribuía títulos de nobreza. Se bem que hoje em dia ocupar um ministério, uma secretaria de estado ou uma diretoria também é como se fosse um título de nobreza.

Transcrevo logo abaixo um trecho do livro 1889, de Laurentino Gomes, onde o autor nos dá uma amostra de como as coisas funcionavam naquela época. Podemos ver que esse mal hábito vem de longe muito longe e talvez até já faz parte da nossa cultura ou está impregnado em nosso DNA.

A farta distribuição desses títulos, iniciada com a chegada da corte de Dom João ao rio de Janeiro em 1808, resultava de uma relação de troca de favores entre a coroa e os senhores da terra. Traficantes de escravos, fazendeiros, donos de engenho, pecuaristas, charqueadores e comerciantes davam o apoio político, financeiro e militar necessário para a sustentação do trono. Em troca, recebiam do monarca posições de influência no governo e privilégios nos negócios públicos e, especialmente, títulos de nobreza.

Usadas como moeda de barganha nas relações do poder, as honrarias eram concedidas em maior número nos momentos de crise, nos quais o trono precisava angariar apoio mais rapidamente.

Vejam como muita coisa não mudou!

[ A Colônia – Do Livro “1808”, de Laurentino Gomes ]

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Era uma população analfabeta, pobre e carente de tudo. Na cidade de São Paulo de 1818, já no governo de Dom João VI, apenas 2,5% dos homens livres em idade escolar eram alfabetizados. A saúde era absurdamente preacária. “Mesmo nos centros mais importantes da costa se não encontraria[…] um médico que tivesse feito um curso regular”, conta Oliveira Lima, baseando-se nos relatos do comerciante inglês John Luccock, que a partir de 1808 viveu dez anos no Rio de Janeiro. “As operações mais fáceis costumavam ser praticadas pelos barbeiros sangradores e para as mais difíceis recorria-se a indivíduos mais presunçosos, porém no geral igualmente ignorantes de anatomia e patologia”. A autorização para fazer cirurgia e clinicar era dada mediante um exame perante o juiz comissário, ele próprio um ignorante da ciência da medicina. Os candidatos eram admitidos nessa prova se comprovassem um mínimo de quatro anos de prática numa farmácia ou hospital. Ou seja, primeiro se praticava a medicina e depois se obtinha a autorização para exercê-la.