[ Fenômenos Curiosos ]

Faz algum tempo observo que o acesso à informação que vem se tornando cada vez mais amplo e facilitando gera em muitos de nós dois fenômenos curiosos e similares.

O primeiro é a sensação de possuir muito conhecimento. Mas informação e conhecimento são duas categorias distintas. Saber o que fazer com as informações constitui conhecimento. O conhecimento também envolve saber separar a informação boa da ruim. Conhecimento requer reflexão, isto é, pensar sobre as informações disponíveis.

O segundo é a impressão de que se é sábio. Se o conhecimento é uma categoria bem diferente da informação, sabedoria é mais ainda. A sabedoria requer muito mais reflexão e ponderação assim como alguma dose de prudência até.

Venho notando, e isso é uma observação puramente pessoal e não está embasada em nenhuma quantificação mais séria e rigorosa, que estes dois fenômenos são muito comuns entre a rapaziada de vinte e poucos anos.

[ Um Oceano de Informação ]

Essa tirinha é uma homenagem à frase do Átila Lamarino Canal Nerdologia no TEDxUSP: recomendo o vídeo: 

https://www.youtube.com/watch?v=B_x8EccxJjU
“A gente ainda trata a informação na sala de aula como se ela fosse um bebedouro em um deserto, esquece isso! Nós estamos hoje em um dilúvio de informação e tínhamos que estar ensinando as pessoas a nadar.”

[ Mídia: meio intermediário ]

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Este texto vai falar de MÍDIA!

Nestes tempos em que a preocupação com o significado das palavras anda tão em baixa e quando muitos sofrem com graves problemas de compreensão semântica, é preciso iniciar o texto apresentando um significado para a palavra mídia (e também avisando do que trata o texto…). Vamos lá…

“Mídia é todo suporte de difusão da informação que constitui um meio intermediário de expressão capaz de transmitir mensagens”.

Coloquei a expressão meio intermediário em destaque por um motivo: ela vai ser a linha condutora do raciocínio que pretendo desenvolver aqui. E mais uma vez me rendo a ter que dar uma explicação do que virá…

Como meio intermediário, qualquer veículo de mídia, seja ele um tradicional veículo como os grandes jornais, as grandes emissoras de rádio de TV, portais e agências de notícias, ou seja também as chamadas mídias alternativas, independentes ou livres, é um INTERMEDIÁRIO entre o fato ocorrido e os leitores, expectadores ou ouvintes. O veículo de mídia está no meio, está entre você, eu ou quem quer se seja, e o fato acontecido. Sim, é importante salientar que só se noticia o que aconteceu. Falar do que ainda vai acontecer não é noticiar, mas sim especular, fazer jogo de adivinhação.

E como meio intermediário qualquer veículo de mídia acaba aplicando um filtro ao informar. Da mesma forma que nós também aplicamos um filtro ao nos informarmos. Parece-me que seja uma característica do nosso cérebro, a seletividade. Sim, somos seletivos, a evolução nos fez assim. Selecionamos aquilo que realmente nos interessa e deixamos de lado o que não nos interessa. Assim vem caminhando a humanidade desde que descemos das árvores!!

Por conta dessa seletividade natural de cada um de nós é que os veículos de mídia, enquanto meio intermediário, possuem uma tendência a informar aquilo que um determinado público quer saber. Muitas vezes esses veículos até disfarçam esse procedimento, outras tantas vezes deixam bem escancarado.

É por isso que é importante não se guiar única e exclusivamente por apenas um ou por um número reduzido de veículos de mídia. Quanto maior e mais diversificados forem os meios intermediários que temos à nossa disposição para a formação de nossos juízos a respeito dos fatos que acontecem diariamente, melhor para nós.

Acontece que muitas vezes por falta de tempo ou até mesmo preguiça intelectual ou mesmo assassinato da capacidade de pensar (sobre esse tema sugiro a leitura dessa entrevista aqui), muitos preferem se informar somente através daqueles meios intermediários que informam aquilo que já se deseja saber. Pode até mesmo ser uma defesa instintiva  do seu inconsciente para preservar a sua saúde mental, isto é, saber somente aquilo que consegue suportar.

Os veículos de mídia, como meios intermediários que são, podem ser comparados a túneis. Quando se entra em um túnel tem-se a visão lateral bastante limitada. O túnel limita a sua percepção. Desta forma, se você se vale apenas de um ou de poucos meios intermediários de informação para construir a sua visão de mundo, ela ficará bastante limitada. Olhar para os dois lados e ter uma ampla visão dos mesmos nunca foi uma metáfora tão acertada como nos dias que estamos vivendo!!!

[ Informação Faltante ]

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Quando fazemos algumas inferências é comum, aqui e acolá, parecer que está faltando alguma informação importante. Geralmente deixamos essas informações subentendidas em nosso texto ou fala, isto é, contamos que o acréscimo seja feito por quem nos lê ou ouve. Vamos a um exemplo. Suponha que você diga para alguém:

“Estou certo de que o livro de Jorge Amado que comprei é muito bom e que irei gostar dele”.

Se a pessoa para quem você fala sobre o livro de Jorge Amado lhe conhece bem e sabe que você é fã das obras do escritor baiano, ela pode ter feito a seguinte inferência, ainda que não de forma explícita:

“O meu amigo sempre gostou dos romances escritos por Jorge Amado. Logo, ele deverá também gostar desse e deverá considerá-lo muito bom”.

A esse tipo de raciocínio com premissas ausentes damos o nome de entimemas.

Entimemas dependem do contexto. O nosso reconhecimento e subsequente reconstrução da inferência depende da situação em que aparece a informação.

Algumas vezes, as propagandas são eficazes porque são na verdade entimemas com conclusões ausentes. Alguns comerciais astuciosos dizem muito pouco, mas deixam implícito muita coisa. As imagens visuais são criadas para que você, sem se dar conta, complete a conclusão que falta: “Se eu comprar este produto, eu viverei o tipo de vida mostrada na tela”. Nas propagandas políticas este recurso é bastante comum, uma vez que os candidatos hoje em dia são verdadeiros produtos fabricados pelos marqueteiros políticos.

O que escolhemos para completar a premissa ou a conclusão que falta pode afetar a avaliação subsequente da inferência. Por exemplo, suponha que alguém diga o seguinte:

“Meu cavalo é veloz porque é puro-sangue”.

Poderíamos completar a informação de duas maneiras diferentes:

  1. Meu cavalo é veloz porque é puro-sangue, e todos os puro-sangue são velozes.
  2. Meu cavalo é veloz porque é puro-sangue, e a maioria dos puro-sangue é veloz.

A primeira reconstrução seria inválida tão logo fosse encontrado um contra-exemplo, isto é, um puro-sangue que não fosse veloz. Assim sendo, a segunda reconstrução tem mais chance de ser verdadeira, pois admite a existência de algum puro-sangue não veloz.

Os entimemas são grandes geradores de confusão em um debate. Quem profere um entimema muitas vezes espera que quem está ouvindo ou está lendo o seu texto complete a informação ausente, ou melhor, a informação implícita da maneira mais adequada possível, isto é, de acordo com o que o autor do entimema acredita ser o correto. E como nem sempre isso acontece surgem os inúmeros equívocos e informações que não são bem compreendidas. É comum num debate em que alguém se valeu de um entimema a pessoa dizer:

“Mas isso está implícito no que eu falei! Vocês é que não entenderam direito!”

Em tempos em que a compreensão textual se torna cada vez mais complicada e onde muitos não conseguem fazer uma interpretação razoável por mais simples que seja um texto ou tema de uma apresentação, creio que a melhor política é evitar ao máximo o uso de entimemas, ainda que o seus texto ou fala fique um tanto cheio de explicações e talvez até mesmo cansativo.

 

P.S.: este texto foi escrito baseado em um capítulo do livro Lógica – Uma Introdução Voltada para As Ciências, de Stan Baronett.