[ Mais um TCC para a Conta ]

Apresentação de TCC – 27.08.2019

E ontem, 27 de agosto, foi dia de ver mais um orientando, ops ops, uma orientanda apresentar seu TCC no Curso de Ciência da Computação da UVA.

O tema do TCC da Nathalia foi “A Importância do Trabalho de Frege para a Lógica Matemática”.

Pequena introdução para quem não nevega nos tortuosos mares das exatas… Friedrich Ludwig Gottlob Frege, foi um Filósofo, Matemático e Lógico alemão. Ele é tido como um dos criadores da Lógica Matemática moderna. Para mais informações veja: https://pt.wikipedia.org/wiki/Gottlob_Frege.

Aqui no nosso curso e penso que em boa parte dos cursos de Ciência da Computação e áreas afins, a molecada gosta mais de estudar temas que tenham um viés mais prático. Porém, a Nathalia resolveu estudar algo bem teórico e que faz parte dos fundamentos da Matemática e por conseguinte da Ciência da Computação.

E como disse um dos meus colegas de banca, é mais comum os estudantes saberem quem foi George Boole, porém Frege é praticamente um desconhecido e como mostrou a minha orientanda, o trabalho de Frege foi de grande relevância.

Foi bacana ver meus colegas que estavam na banca junto comigo, parabenizando a minha orientanda e destacando a sua iniciativa de estudar algo mais teórico. Confesso que fiquei um tanto quanto envaidecido. 🙂

Deixo aqui registrado os meus parabéns e votos de sucesso para a Nathalia, que em breve deverá deixar nosso curso, pois irá colar grau. Espero que esse estudo que ela inicou através do TCC sirva de inspiração e motivação para estudos mais avançados no campo da Teoria da Computação.

[ Diário da Pós – Edição de Encerramento ]

Não!!!! Ainda não é o encerramento da pós. Isso ainda vai demandar um tempinho que ainda nem sei precisar direito quanto vai ser.

Vamos a um rápido balanço de fim de semestre.

Pela primeira vez, desde o início dessa aventura, que fiz disciplinas desacompanhado dos meus colegas professores do Curso de Ciências da Computação da UVA.

Fiz duas disciplinas que são bem relacionadas com aquilo que trabalho na UVA. Essas disciplinas foram: Aspectos Formais da Computação e Lógica Modal. A primeira foi pancada. Tive muitas dificuldades que se deviam principalmente a deficiências em minha formação que somente quando somos submetidos a experiências como essa é que nos damos conta. Resultado: não logrei o êxito que eu almejava. Havia até uma possibilidade de tentar fazer umas avaliações aqui e outras ali, mas diante do quadro eu preferi seguir o conselho que sempre dou aos meus alunos que não estão indo bem na disciplina e resolvem trancá-la: continuar na disciplina para aprender o máximo que puder e fazer ela novamente em outro semestre.

Porém a experiência foi bastante enriquecedora. Aprendi muita coisa bacana que seguramente será importante mais adiante. E o principal, descobri o que preciso melhorar. Me dei conta de deficiências que eram desconhecidas para mim. E vida que segue. Quando eu cursar essa disciplina novamente acredito que será bem menos traumático.

A segunda disciplina também foi difícil. Porém, nela logrei êxito. Lógica Modal me ensinou muita coisa bacana e o principal, despertou a minha curiosidade para me aprofundar nos estudos dela.

O saldo que tenho desse semestre foi bem positivo. Aprendi muita coisa interessante e fiz novas amizades.

Terei agora um intervalo nessa minha aventura. Mas em breve o Diário da Pós voltará a ser publicado.

[ Todos e Ninguém – Use com Moderação ]

As palavras TODOS e NINGUÉM quando utilizadas no contexto da Lógica de Predicados e na Teoria de Conjuntos possuem significado bem definido e que muitas vezes não é percebido pelo senso comum.

Muitos de nós, em nossas conversas no dia a dia costumamos empregar essas duas palavras. É bastante comum ouvir (ou ler) alguém dizer: “Ah… Mas todos os que moram aqui não gostam desse político!” ou “Ninguém ficou contra o pronunciamento dela!” ou “Todos da Universidade estão me apoiando!”.

Claro que essas são situações que expressam uma generalização grande. E grandes generalizações podem ser bastante injustas e até mesmo quase impossíveis de serem devidamente provadas.

A palavra TODOS e suas variações, na Lógica de Predicados denota quantificação universal. Quando quantifico universalmente algo assumo que TODOS os elementos de um determinado conjunto possuem determinada propriedade. Vamos a um exemplo:

Suponha que eu diga: TODOS os que moram nesta cidade são pessoas honestas.

Ao dizer isso assumo que conheço a idoneidade de cada um dos habitantes da referida cidade. Porém, bastará haver um único cidadão desonesto naquela cidade para que minha afirmação acima possua valor de verdade igual a falso. Ou seja, para que minha afirmação sobre a honestidade de TODOS os cidadãos daquela cidade ser verdadeira, TODOS devem ser pessoas honestas de fato. Vejam como é difícil provar que uma proposição quantificada universalmente possui valor de verdade igual a verdadeiro.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado à palavra NINGUÉM com algumas sutis diferenças. Enquanto que TODOS passa a ideia de que TODOS os elementos de um determinado conjunto possuem certa propriedade, a palavra NINGUÉM evidencia que naquele conjunto não há elemento algum que possua tal propriedade. Vamos a mais um exemplo:

Suponha que digamos: NINGUÉM que mora nesta cidade é educado.

Esta afirmação atesta que naquela cidade não uma só pessoa que possua a propriedade da educação. Em outras palavras, TODOS são mal-educados.

Assim como no primeiro exemplo, para provar esse minha afirmação acerca da falta de educação das pessoas daquela cidade precisaria verificar um a um, se cada pessoa daquela cidade realmente não é educada. E também bastaria encontrar um único cidadão educado para fazer com que o valor de verdade da minha afirmação fosse falso.

Podemos concluir então que ao empregarmos as palavras TODOS  e NINGUÉM devemos ter um certo cuidado ou plena certeza do que estamos afirmando. Caso contrário podemos correr o risco de estar proferindo uma mentira ou sendo injustos. O melhor mesmo é empregar quantificação existencial, isto é, ao invés de dizer “TODOS os que moram nesta cidade são pessoas honestas“, podemos afirmar que “Existem pessoas honestas nesta cidade“, bem como dizer “Há pessoas mal-educadas nesta cidade” ao invés de “NINGUÉM que mora nesta cidade é educado“.

[ Ordem trocada ]

Quando se tem pouco ou quase nenhum conhecimento em certos assuntos é comum acreditar que o efeito vem antes da causa, quando o natural, o que de fato acontece é justamente o contrário: todo efeito é precedido por uma ou várias causas.

Tão ruim quanto acreditar que o efeito vem antes da causa é achar que há efeitos sem causas. Não tem como. As Leis da Física não permitem.

Compreender as causas de um efeito, identificar essas causas e não aceitar que seja possível efeitos sem causas ajuda em muito a ver melhor o mundo e suas complexas relações dos inúmeros agentes. Ajuda a não ser enganado por quem tem interesse na confusão de conceitos. Por incrível que pareça, no jogo de interesses que permeia as relações humanas há muitos que jogam com a confusão entre causa e efeito.

[ Estão mudando até a Lógica ]

Lendo alguns posts e também outros tantos debates bem acalorados venho notando que muitos estão tentando mudar até mesmo o processo de análise lógica.

A análise lógica nos ensina que as conclusões dependem dos fatos apresentados. Isto é, as conclusões devem derivar dos fatos.

Ao contrário do que nos ensina a análise lógica, percebo inúmeros debatedores querendo de qualquer forma, a qualquer custo, que os fatos dependam das conclusões. Ou seja, concluem algo e depois ficam buscando fatos que dêem sustentação às suas conclusões.

Enfim, que tempo mais estranho esse que vivemos!

[ Fatos x Conclusões ]

Na Lógica, os fatos (ou premissas) são utilizados para dar sustentação à conclusão. Ou seja, a partir dos fatos é que chegamos às conclusões.

Mas é interessante como há aqueles que preferem inverter a ordem da Lógica. Isto é, estabelecem uma conclusão, que não se sabe como se chegou a ela e aí passam a buscar pelos fatos que possam dar sustentação a esta conclusão. E nessa busca tendem a escolher com muita maestria somente aqueles fatos que realmente ajudem a dar sustentação à sua conclusão e ignoram completamente qualquer fato que possa refutar ou contradizer a sua conclusão.

Bem… Particularmente, prefiro seguir a ordem estabelecida pela Lógica. É mais lógico!!

😉

[ Informação Faltante ]

quebracabeca

Quando fazemos algumas inferências é comum, aqui e acolá, parecer que está faltando alguma informação importante. Geralmente deixamos essas informações subentendidas em nosso texto ou fala, isto é, contamos que o acréscimo seja feito por quem nos lê ou ouve. Vamos a um exemplo. Suponha que você diga para alguém:

“Estou certo de que o livro de Jorge Amado que comprei é muito bom e que irei gostar dele”.

Se a pessoa para quem você fala sobre o livro de Jorge Amado lhe conhece bem e sabe que você é fã das obras do escritor baiano, ela pode ter feito a seguinte inferência, ainda que não de forma explícita:

“O meu amigo sempre gostou dos romances escritos por Jorge Amado. Logo, ele deverá também gostar desse e deverá considerá-lo muito bom”.

A esse tipo de raciocínio com premissas ausentes damos o nome de entimemas.

Entimemas dependem do contexto. O nosso reconhecimento e subsequente reconstrução da inferência depende da situação em que aparece a informação.

Algumas vezes, as propagandas são eficazes porque são na verdade entimemas com conclusões ausentes. Alguns comerciais astuciosos dizem muito pouco, mas deixam implícito muita coisa. As imagens visuais são criadas para que você, sem se dar conta, complete a conclusão que falta: “Se eu comprar este produto, eu viverei o tipo de vida mostrada na tela”. Nas propagandas políticas este recurso é bastante comum, uma vez que os candidatos hoje em dia são verdadeiros produtos fabricados pelos marqueteiros políticos.

O que escolhemos para completar a premissa ou a conclusão que falta pode afetar a avaliação subsequente da inferência. Por exemplo, suponha que alguém diga o seguinte:

“Meu cavalo é veloz porque é puro-sangue”.

Poderíamos completar a informação de duas maneiras diferentes:

  1. Meu cavalo é veloz porque é puro-sangue, e todos os puro-sangue são velozes.
  2. Meu cavalo é veloz porque é puro-sangue, e a maioria dos puro-sangue é veloz.

A primeira reconstrução seria inválida tão logo fosse encontrado um contra-exemplo, isto é, um puro-sangue que não fosse veloz. Assim sendo, a segunda reconstrução tem mais chance de ser verdadeira, pois admite a existência de algum puro-sangue não veloz.

Os entimemas são grandes geradores de confusão em um debate. Quem profere um entimema muitas vezes espera que quem está ouvindo ou está lendo o seu texto complete a informação ausente, ou melhor, a informação implícita da maneira mais adequada possível, isto é, de acordo com o que o autor do entimema acredita ser o correto. E como nem sempre isso acontece surgem os inúmeros equívocos e informações que não são bem compreendidas. É comum num debate em que alguém se valeu de um entimema a pessoa dizer:

“Mas isso está implícito no que eu falei! Vocês é que não entenderam direito!”

Em tempos em que a compreensão textual se torna cada vez mais complicada e onde muitos não conseguem fazer uma interpretação razoável por mais simples que seja um texto ou tema de uma apresentação, creio que a melhor política é evitar ao máximo o uso de entimemas, ainda que o seus texto ou fala fique um tanto cheio de explicações e talvez até mesmo cansativo.

 

P.S.: este texto foi escrito baseado em um capítulo do livro Lógica – Uma Introdução Voltada para As Ciências, de Stan Baronett.