[ Ainda Bem ]

Ainda bem que há tempos o professor vem deixando de ser o dono do monopólio do saber em sala de aula e cada vez mais os estudantes possuem acesso às mais diversas e diferentes fontes de informação e conhecimento.

Fico feliz com essa constatação porque tenho ficado muito chocado com a quantidade crescente de portadores de diploma de doutorado, muitos já com pelo menos quatro décadas de existência neste pálido ponto azul, que vivem falando asneiras dentro e fora das redes sociais, que acreditam e compartilham fake news de maneira absurda (desprezando assim qualquer rigor quanto às fontes), que estão mais e mais presos à teorias da conspiração extremamente amalucadas, que desenvolvem inúmeros pensamentos carregados de viés de confirmação. Sem falar na cegueira coletiva que se abate sobre estas pessoas quanto ao reconhecimento destas condições, além da grande crença em teorias manipuladoras alucinadas.

Mesmo com a crescente perda do monopólio do conhecimento por parte dos professores, o estrago que esse grupo descrito no segundo parágrafo faz nos corações e mentes de muitos jovens estudantes ainda é grande, pois ainda tem muito estudante que tem receio de duvidar de seus professores. Além do mais, muitos estudantes percebem seus mestres como Mestres Iluminados de fato.

[ Um Oceano de Informação ]

Essa tirinha é uma homenagem à frase do Átila Lamarino Canal Nerdologia no TEDxUSP: recomendo o vídeo: 

https://www.youtube.com/watch?v=B_x8EccxJjU
“A gente ainda trata a informação na sala de aula como se ela fosse um bebedouro em um deserto, esquece isso! Nós estamos hoje em um dilúvio de informação e tínhamos que estar ensinando as pessoas a nadar.”

[ Choque de Gerações ]

 
Estavam dividindo aquela mesa redonda, numa biblioteca, um professor de 42 anos de idade e um jovem que aparentava ter pouco mais de 19 anos. O professor já ocupava a mesa fazia algum tempo. O estudante chegou e desastradamente bateu na mesa, e logo pediu desculpas pelo malfeito.
 
A mesa que os dois dividiam era daquelas que quando você se apoia nela ou a toca com pouca delicadeza, balança. Dependendo da falta de delicadeza, a mesa balança muito.
 
Tanto o professor como o estudante estavam diante notebooks.
 
Acontece que o jovem estudante, como muitos jovens estudantes, parecia ser uma pessoa ansiosa, bastante ansiosa. Poderia ser que ele estivesse estudando para uma prova ou talvez o que ele estudava não estava sendo bem compreendido. Enfim, o estudante constantemente batia na mesa, o que provocava um certo tremor na tela do notebook do professor. Digitava com certa fúria que também provocava movimentos na mesa.
 
Quando o estudante não batida na mesa ele empurrava alguma cadeira próxima com algum movimento dos pés. Sim, haviam duas cadeiras vazias e era visível o temor do professor que mais dois estudantes igualmente nervosos resolvessem vir até aquela mesa compartilhar o espaço.
 
O professor tentava ler uma dissertação. A leitura não era das mais prazerosas. Não era como ler um romance, ou obra do gênero. Ler dissertações, dizia aquele professor, fazia parte dos ossos do ofício. Mas não era tão ruim quanto corrigir provas.
 
E o tempo foi passando e o estudante ansioso ficava cada vez mais ansioso e cada vez se mexia mais e abria e folheava um livro na esperança de encontrar a iluminação que insistia em não vir.
 
Nisso, o professor de 42 anos, com alguns cabelos brancos, não somente na cabeça mas na barba também, já um tanto incomodado com os tremores da tela do seu notebook, pensava e refletia: “Será que com o passar dos anos vamos ficando mais impacientes e incomodados?! Ou será que é maldade minha não me compadecer do estado de espírito dessa pobre alma que está à procura da luz através dos livros!?”

[ Mais um Aprendizado ]

Já disse neste espaço que percebo a sala de aula como sendo uma via de mão dupla de aprendizado. Perdi a conta das vezes em que meus alunos me ensinaram alguma coisa ao longo desses anos exercendo a profissão de professor.

Ontem, dia 28 de setembro do ano da graça de 2017, recorri aos meus alunos de Lógica Matemática do primeiro período do Curso de Ciências da Computação para me ensinar um conceito.

Faz alguns dias (ou semanas) que observo em muitas postagens na Caverna do Facebook o uso da expressão “10/10” ou “chegar junto da(o) 10/10” e por aí vai.

Minha primeira intuição me dizia que deve ser algum adjetivo. Mas eu precisava deixar o campo da mera intuição e verificar a validade da mesma (coisa de professor de Lógica que também é estudante de Filosofia).

E assim, ontem perguntei à queima roupa, num momento de descontração da aula:

“Pessoal, o que quer dizer 10/10???!!”

Ah… É interessante observar a satisfação dos alunos em assumir o papel de professor do professor!!! É sério, eles ficam felizes em poder nos ensinar alguma coisa!! Talvez seja essa uma das chaves para construirmos uma boa relação em sala de aula e dessa forma contribuir mais ainda para o processo de aprendizagem da molecada!!!